terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Resiliência

Flores do cerrado brasileiro: resiliência pura!


Não podemos evitar as ondas do oceano, mas podemos aprender a surfá-las!


Por Tereza Kawall

Sob a tirania implacável do relógio, nosso dia a dia contemporâneo exige muita energia, competências, inúmeras e crescentes habilidades. Sobreviver é uma tarefa difícil e complexa, especialmente nos grandes centros urbanos onde vivemos de um lado para outro, sobressaltados e estressados. Muitos de nós talvez ainda se lembrem da imagem daqueles malabaristas de circo, que ofegantes, faziam girar vários pratos simultaneamente, correndo de lá pra cá, girando-os mais uma vez para eles não caíssem no chão.

O capitalismo, é um modelo econômico que empurra o cidadão sem nenhuma cerimônia para o consumo desnecessário, quer ele queira , perceba ou não. Há uma felicidade artificial e inadiável que é oferecida pela mídia, um verdadeiro “ canto das sereias”, cuja melodia tem em seu refrão várias vezes a palavra “ comprar”.


A competição, o transito caótico, as más notícias e todos os tipos de decepções permeiam nosso cotidiano. Como conseqüência, ficamos fragilizados e repetitivos, desesperançosos e perdemos muita energia vital .


Haja resiliência!

Seria essa a expressão mais adequada aos dias de hoje. A paciência por si mesma já não basta, além dela precisamos ser determinados, confiantes, ousados e ao mesmo tempo flexíveis, conscientes para manter os problemas em perspectiva; alguns têm solução e outros não, e deixar que o tempo se encarregue de mostrar os caminhos e, sobretudo aprender a olhar de forma diferente para eles, achar novas maneiras e estratégias de contornar as adversidades.


O indivíduo pode ser mais ou menos resiliente, se levarmos em conta fatores intrínsecos de personalidade, valores, educação ou heranças parentais. Nossa cultura ocidental sempre deu um enorme valor à figura do herói como um ser que deverá superar situações de extrema dificuldade para proteger a própria vida, salvar algo ou alguém. Na mitologia temos o arquétipo do herói que passa por inúmeras provações, desafios físicos e morais, e que ao final de sua saga voltará transformado trazendo uma mensagem de verdade e esperança.

O sofrimento, as perdas e frustrações são inevitáveis durante a vida, e não há ninguém que possa dizer que não passou por eventos difíceis e traumáticos durante seu desenvolvimento.


No entanto, a atitude resiliente não é sinônimo de força ou coragem no sentido mais egóico ou heróico do termo. Ela pressupõe também uma sabedoria e criatividade, um discernimento que aparece como conseqüência de experiências anteriores, algo que também é um ganho, à medida que as adversidades vão criando uma espécie de “ musculatura interior”.

Numa pessoa resiliente devem estar presentes uma capacidade de adaptação e flexibilidade perante o seu destino, e de fazer as mudanças necessárias quando elas são inevitáveis.
Nossa idéia é que a resiliência pode e deve ser exercitada, não é algo simplesmente herdado ou uma traço de personalidade. Como seria isso?

Treinando a resiliência

Aceitação
Em primeiro lugar, não negar o problema quando ele bate à sua porta; a negação só faz aumentar o seu tamanho, assim como acentuar a resistência para as mudanças.
As soluções podem começar a aparecer a partir dessa compreensão; como posso mudar aquilo que não vejo?

Controle
Uma vez que a vida é inexoravelmente mutável e transitória, as reações de controle apego são ineficazes. Muito ao contrário do que se pensa exercer muito controle sobre tudo e todos não é uma solução; há um curso próprio da vida e dos eventos que independente da minha vontade e da minha opinião.
O criticismo exagerado e altas expectativas de resultados são a porta aberta para desilusões. Assumir fraquezas ou incompetências para si mesmo é antes de mais nada, um ato de coragem.

Aprendizado
Adotar uma perspectiva de entendimento e aprendizado, quando algo traz muita contrariedade ou angústia; há formas distintas também para o sofrer, posso sofrer com inteligência ou com burrice!
Na primeira há mais crescimento dignidade, na segunda há uma vitimização e uma busca incessante de culpados que acabam por paralisar a vida.
Os trabalhos psicoterapêuticos eficientes podem mostrar que não precisamos nos identificar com o sofrimentos ou padrões negativos, mas sim, examiná-los e aprender com eles.

Pré-ocupação

John Lennon disse:
“Vida é uma coisa que acontece, enquanto você fica preocupado, fazendo planos” .

Não se preocupar demais com o futuro. Sofrer por antecipação é um dos males do homem contemporâneo, a ansiedade é corrosiva para a saúde, afeta o sistema imunológico, e sua base é o medo e a falta de confiança. Não há fórmulas mágicas para superar crises e dificuldades sejam elas quais forem, mas individuo resiliente tem um diferencial na forma de atravessar esses momentos. Concentração, foco e tolerância podem moldar uma forma diferente de olhar um problema pois nossa mente é maleável, e a felicidade é também uma forma de interpretar a realidade.

Disse um mestre: Não podemos evitar as ondas do oceano, mas podemos aprender a surfá-las”

O surfista sabe muitas coisas, tem jogo de cintura, agilidade, presença de espírito, amor pelo esporte, conhece o mar, conhece os ventos favoráveis e sabe a hora de pular fora da onda, pois logo atrás já vem vindo outra!


Conclusão
Na filosofia budista muito se fala da natureza transitória da vida, que é uma sucessão de ciclos, tudo está em constante mudança, nada é definitivo; essa percepção é fundamental para vivermos uma vida de mais qualidade. Para um bebê o desafio é andar e falar, para um jovem é decidir-se pelo estudo e profissão; se a cada nova etapa pudermos fazer sempre o melhor, já fizemos muito.

Quando falamos de fortalecer o espírito falamos de conhecimento e prática, senão corremos o risco de cair em retóricas evasivas. Um corpo para ser forte e vigoroso precisa de exercícios, movimentos e boa alimentação.
Nossa mente e nosso espírito também podem ser cultivados com bons pensamentos, boas palavras e boas ações, da mesma forma que um solo fértil e arado com boas sementes trará, na hora certa, as flores e os frutos esperados.

A prática da meditação de forma disciplinada, assim como a yoga e técnicas de respiração e relaxamento podem ser fundamentais para o desenvolvimento desta visão ou postura mais resiliente perante a vida. Os seus resultados aparecem de acordo com a dedicação, assim como tudo em que desejemos ter maestria.

Essas práticas levam a um maior poder de concentração, nos tirando do conhecido “ piloto automático”, em que atarefados caímos na mesmice, fazemos várias coisas sem nenhuma atenção. A concentração, diferentemente da tensão, nos ajuda a valorizar sentimentos de alegria e prazer, onde moram nossas reservas de clareza, criatividade e sabedoria, e que tão pouco acessamos.
.
Está na moda cuidar do corpo, malhar, correr, mas essas atividades quando viram obrigação ou obsessão, são fontes de stress. Que tal uma caminhada mais tranqüila num parque, numa mata, ouvindo os sons que dela vem, percebendo a sua respiração, os tons de verde que estão à sua volta? Sem relógio e sem celular, claro!

Curtir a natureza, conviver, estar perto de animais, brincar com eles produz sensações de prazer e alegria que nos tornam mais calmos e relaxados. Se a impermanência é uma das características da existência, seguramente a valorização do momento presente é uma forma de exercitarmos a resiliência.
E claro, todas as atividades prazerosas como ouvir boa música, dançar, cantar, estar com amigos.

Podemos ser artistas da nossa própria existência, cuidando a cada dia de nosso maior patrimônio, nossa saúde física, emocional e espiritual.
De forma bem simples podemos dizer que a “ máxima” resiliente é: “
Levanta , sacode a poeira e dá volta por cima”!


Publicado na revista Planeta, janeiro 2010
------------------------------------------------------------------------------------------

Bibliografia
Aprenda a relaxar
Mike George
Editora Gente

Mente alerta
Kabat-Zinn
Editora Objetiva

Stress a seu favor
Susan Andrews
Editora Agora

Em busca do Sentido
Viktor E. Frankl
Editora Vozes



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

São Francisco, o homem ecológico


Afresco de São Francisco,
Basílica de SFrancisco,
Assis, Itália





"O homem ecológico, o irmão universal que se confraterniza com tudo, que religa todas as coisas, religa as mais distantes às mais próximas.
Francisco casa os céus com os abismos, as estrelas com as formigas e faz uma síntese, das mais fascinantes e das generosas da humanidade, a partir de dentro. Une a ecologia interior com a ecologia exterior”.

“Por que São Francisco hoje? Por que a sua relevância e sua atualidade hoje? Então trata-se de buscar além da biografia e da subjetividade de Francisco; trata-se de captar o modo de ser de Francisco que é relevante para nós. Se ele tornou-se um arquétipo, isto é, se ele penetrou no mais profundo do nosso inconsciente cultural, ocidental, global, humano, significa que ele entrou na dimensão do símbolo.
Quando uma pessoa vira símbolo, ela se eterniza. Podemos até esquecer sua biografia mas ela se torna uma realidade coletiva e começa a viver no inconsciente coletivo com uma energia poderosa, que emerge continuamente em mil fulgurações.

Podemos dizer como diria Jung: É preciso despertar o São Francisco e a Santa Clara que estão sepultados dentro de nós, que estão dormindo dentro de nós. Para que eles venham à tona e nós possamos viver com aquele modo de ser que eles viveram, que é um modo de ser integrador e profundamente humanizador”.

... “ Tenho todo um filão franciscano em minha formação, em minha autoconsciência, mas talvez seja por este caminho que a humanidade encontre uma certa luz. E talvez seja nesta direção que encontraremos, quem sabe, a solução de graves problemas de preservação do planeta, de convivência das culturas que se entrechocam, da tolerância e da jovialidade no viver este momento dramático da existência. E também com alegria e serenidade enfrentar os riscos que teremos nesta travessia, com profunda certeza que o fim é bom e está garantido. Por mais que a travessia seja arriscada e tenebrosa. Isso me faz lembrar de um verso de Camões que diz:

“ Depois de procelosa tempestade,
Sombria noite, sibilante vento,
Traz a manhã serena claridade,
Esperança de porto e salvamento”.

São Francisco é uma espécie de porto e salvamento, para muitas buscas do ser humano, não somente do ser humano ocidental, mas dos ser humano planetário, terrenal.

São Francisco é um homem seráfico, quer dizer, é homem, menor, pequeno e ao mesmo tempo angelical, que transfigurou sua vida. Eu diria que ele é um homem reconciliado.
Reconciliou o dentro com o fora, o alto com o baixo, Deus com a humanidade, a dimensão angelical com as dimensões animal e vegetal do ser humano.Viveu tudo isso com uma profunda leveza”.

Do livro: Terapeutas do Deserto
Jean-Yves Leloup e Leonardo Boff
Editora Vozes.

sábado, 30 de janeiro de 2010

São Francisco de Assis

















Por Leonardo Boff

“Qual é a novidade de Francisco?
Ele parte da tradição já internalizada faz essa experiência : se nós somos filhos, então somos irmãos.Francisco viu na só a relação vertical ( ser humano – Filho – Pai), mas viu também pelos lados, em uma relação horizontal. Os filhos juntos são irmãos e irmãs. Essa é a novidades espiritual em Francisco. Francisco não deduz isso racionalmente. Ele vive a filiação como experiência, como uma comoção do coração. Vive a experiência do irmão e universaliza esta experiência. Se todos vêm de Deus e todos são filhos, todos os irmãos, o sol, a lua, as árvores, as rochas, cada um é irmão”.

“ O ser humano é um nó de relações voltado em todas as direções – para cima, para o sonho; para o alto, para Deus, para dentro de si, para o seu coração, para os lados,para irmãos e irmãs; para baixo, para a terra, para a natureza.
Relações em todas as direções. E o ser humano só se realiza, ele se agiliza, se ele articula as relações. Se corta as relações, ele empobrece. Então eu diria que esta antropologia é pan-relacional, é uma antropologia ecológica.

No âmbito dessa antropologia se move São Francisco. Não é preciso ser um nó de relações, mas é preciso ser um nó de relações cordiais. A cordialidade é fundamental para São Francisco, em que tudo é amarrado no coração. Por isso, é carisma, é comoção, é vibração, é entusiasmo, é abraço, é confraternização com todo o mundo em uma antropologia de relação, pan-relacional, de cordialidade para com todos os seres.

Uma antropologia que sabe sentir o coração das coisas. Os textos dizem que Francisco sentia o coração íntimo das coisas Isso tem um sentido bíblico e um sentido profundamente oriental. As coisas têm coração porque tem identidade. Então poder sentir o coração do outro, é afinar-se, entrar nesta sintonia com ele, é viver a fraternidade universal.
É tornar-se árvore, pedra, oceano, estrela. Não é a estrela estar lá e você aqui. É você virar estrela, tornar-se sol, transformar-se em lua. É você ter a união mística, a fusão mística com essa realidade”.

“ Uma democracia cósmica, incluindo nela outros cidadãos; as plantas, os animais, as rochas, as águas, o sol, a lua, as estrelas. Imaginem o que seria das cidades se não houvessem as plantas? Se não existissem o passarinhos, as nuvens, e uma atmosfera pura para respirarmos? Não seria um cidade humana.
Estes novos cidadãos participam do nosso convívio, devem ser respeitados, tem direito a viver. São Francisco já intuíra as legislações para a defesa dos animais e das plantas”.

Do livro: Terapeutas do deserto
Jean -Yves Leloup e Leonardo Boff
Editora Vozes.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Entrevista Revista ISTO É



Um grupo de astrólogos analisa cartas natais de presidenciáveis para 2010:
No site da ISTO É, lá vai:

www.istoe.com.br/reportagens/41140_ESCRITO+NAS+ESTRELAS

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Bolso


“As palavras são enganosas... Palavras são bolsos vazios. À medida que a gente vai vivendo, vai pondo as coisas dentro do bolso. O bolso que tem o nome de “Deus” fica cheio de quinquilharias que catamos pela vida.
Assim quando falamos sobre Deus, não falamos sobre Deus. Falamos é sobre as coisas que guardamos dentro desse bolso. Seu eu respondesse “acredito em Deus” a outra pessoa se enganaria pensando que dentro do meu bolso eu guardo as mesmas coisas que ela guarda no dela. E concluiria mais que sou uma boa pessoa. Mas, se tivesse dito que não acredito em deus, ela concluiria que não sou uma boa pessoa....

“Acreditar no sentido comum que as religiões dão a essa palavra, refere-se a entidades que ninguém jamais viu, tais como anjos, pecados, santos milagres castigos divinos, inferno, céu, purgatório... No meu bolso sagrado, “ acreditar” é palavra que não entra.
Ele está cheio é com palavras que têm a ver com amor, mesmo que o objeto do meu amor não exista. Lembro-me das palavras de Valéry: “ Que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?. Muitas coisas que não existem têm poder...

Eu amo a beleza da natureza, da música, de um poema. Amo a beleza das palavras de amor que os apaixonados trocam. Uma criança adormecida é, para mim, uma revelação, uma ocasião de espanto. Acho que Bachelard adoraria nos mesmos altares que eu: “ A inquietação que temos pela criança” ele escreveu, “ sustenta uma coragem invencível”. Uma criança é um pequeno deus.

Para mim, a beleza é sagrada porque ao experimentá-la, eu me sinto possuído pelo Grande Mistério que nos cerca.

... De Deus só temos a suspeita. A beleza é a sombra de Deus no mundo. Sobre ele- ou ela- deve-se calar – muito embora as religiões sejam por demais tagarelas a seu respeito, havendo mesmo algumas que se acreditam possuidoras do monopólio das palavras certas -a que dão o nome de dogmas.
Estou de acordo com Alberto Caieiro: “ Pensar em Deus é desobedecer à Deus, porque Deus não quis que o conhecêssemos...”
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,sem dúvida que viria falar comigo e entraria pela porta dizendo-me” Aqui estou”!

Eu já nem tenho mais o bolso com nome de ‘Deus”. Esse nome se presta a muitas confusões. Muitos bolsos com estes nomes estão cheios de escorpiões e vinganças.
Amo a sombra de Deus. Mas ele mesmo eu nunca vi. Sou um ser humano limitado. Só sou capaz de amar as coisas que vejo, ouço, abraço, beijo...
Tenho, isso sim, um bolso com o nome “O Grande Mistério”. Mas não sei o que está dentro dele. Por vezes suspeito que é o meu coração.... ".


Livro: Desfiz 75 anos
Autor: Rubem Alves
Editora Papirus

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Zilda Arns: esperança!



Por Tereza Kawall

“Não é hora de perder a esperança”

A simplicidade da frase de D. Evaristo Arns traz em seu bojo muito mais do que o seu sentido mais óbvio e imediato, tendo em vista a comoção da perda de sua “caríssima” irmã.
.A morte súbita e dramática de Zilda Arns é um convite à reflexão, algo que vem se tornando cada vez mais raro e difícil neste oceano de pragmatismo e indolência que assola nosso tão pobre e tão rico país.

Dona Zilda construiu ao longo de sua vida obras que muitas “ primeiras damas” são incitadas a fazer mas não conseguem, uma vez que os gestos e posicionamentos dessa natureza não vêm do cargo, mas sobretudo da alma.

Já foi dito por muitos que a ausência da presença feminina em cargos de poder é em grande parte responsável pela degradação social e política do mundo contemporâneo.
Ao olhar as imagens da médica e mãe Zilda, carregando e beijando crianças que de tudo carecem e seu largo sorriso de satisfação, penso que sim, estamos todos carentes do feminino em nossas vidas.
Não da expressão mais domesticada e vulgar do feminino, embotocado e oferecido para a mídia voraz e vazia.

Mas do feminino arquetípico, aquele que sabe acolher, nutrir, ouvir, carregar e preservar a vida. O feminino que jorra das fontes, que suaviza e alimenta, que nos acalma, simplesmente abraça e aceita aquilo que somos.

Zilda Arns, soube aliar com maestria e dignidade, a sabedoria e a bondade do feminino ao fazer “ masculino”, que é dotado de lógica, visão, determinação e ação efetiva no mundo.
Vejo nela a ambição e a espiritualidade em seu mais alto sentido, que inclui a fé, a disciplina e a perseverança. Quantos obstáculos burocráticos, políticos e existenciais possivelmente tentaram impedir suas belas realizações?

Vejo também um bálsamo e um contraponto para nossos olhos cansados das imagens diárias e degradantes de nossos governantes inescrupulosos, atuando de forma psicopática, tentando nos convencer sempre da evidência contrária aos graves crimes por eles cometidos. Mentem, sacrificam nossos bolsos e aos poucos vão espoliando também nossos valores, nossa dignidade.

No entanto, e ainda bem, alguns seres humanos são mesmo especiais, e ao passar por aqui não nos deixam esquecer: “ sim, a bondade, a dignidade e a solidariedade são possíveis, existem”!


Felizmente as sementes do projeto Pastoral da Criança já se espalharam e germinaram pelo mundo!

Zilda Arns, que a força de seus gestos e a doçura de seu sorriso permaneçam vivos entre aqueles que têm esperança.



terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Para Meditar



Venha,
Navegue comigo neste calmo oceano.
As margens estão longe, a superfície tranqüila.
Somos navios no oceano, e somos um com o oceano.
Uma pequena onda se espalha atrás de nós,
Viajando pelas águas turvas
Seus sutis movimentos
Registram nossa passagem.

Nossas ondas se encontram
E formam um padrão
Que espelha o seu movimento e o meu.
Quando outros navios, que também somos nós
Navegam pelo oceano que somos nós outra vez,
Suas ondas se misturam com as nossas.
A superfície do oceano ganha vida
Com onda após onda, colheita após colheita.
São elas a memória de nosso movimento,
O traçado de nosso ser.

As águas murmuram de um para o outro,
E de nos para todos que também navegam:
Nossa separação é uma ilusão;
Somos partes ligadas de um todo.

Somos um mar com movimento e memória.
Nossa realidade é maior do que você ou eu,
Do que todos os navios que navegam estas águas,
E do que todas as águas que navegamos.


Livro:
Conexão Cósmica - guia pessoal para a emergente visão da ciência
Autor: Ervin Laszlo
Editora Vozes.

Saiba mais:
http://www.enlightennext.org/magazine/bios/ervin-laszlo.asp

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Filme A Partida




Por Tereza Kawall

Assistir ao filme A Partida ( Okuribito, Japão), melhor filme estrangeiro de 2009, foi um lindo presente neste final de ano.
Vira e mexe, leio por aí que o presente é, afinal, o maior presente que recebemos todos os dias. Acordar, nos sabermos vivos, respirando, caminhando, olhando em volta...
Que horas são? Alguns logo espreguiçam para acordar primeiro o corpo, outros viram para o lado para mais uma soneca!
É tudo sempre igual, embora nenhum dia seja igual, e isso vale para ontem e valerá também para o amanhã.


O fato é que de uns tempos para cá a morte tem feito visitas mais constantes em minha vida: seria minha idade? Pode ser muitas coisas, mas vejo adolescentes, os trintões, os cinquentões e claro, os mais idosos indo deste plano para um outro misterioso lugar...

Então penso que há uma coisa que está se acelerando, e que me obriga e considerar mais de perto este tema, e sobretudo trazer esta percepção para a consciência do aqui agora, do que é realmente importante.
Quando alguém parte, a conclusão fatal e inequívoca é que ”só levamos a roupa do corpo”, mas as frases são apenas um pequeno pedaço da ópera, que ninguém sabe cantar, mas o fazemos sob o impacto da emoção e da perda, um pequeno ensaio existencial. Para onde foi aquela pessoa? Choramos por nós ou choramos por ela?
E algumas horas ou dias depois ( nas possíveis variações do grau de proximidade com a pessoas falecida), tudo vai sendo esquecido, os tons vivos se tornam mais pastéis, as imagens se dissipam como folhas levadas pelo vento.
Lembro de um amigo que assim escreveu:

“A evidencia da vida é um fato tão patente que a morte , forçosamente, reveste-se de irrealidade”

Mas voltemos ao filme, que é lindo sob vários aspectos, roteiro,música, fotografia.

A morte nos é apresentada sob um ângulo muito especial, de delicadeza e respeito, ali ela é enfeitada ou emoldurada como uma forma de reverenciar tanto aquele que parte quanto aqueles que ficam.Sempre dizemos que não queremos levar a imagem de alguém no caixão, mas ali sucede justamente o contrário!

E no filme vemos uma perfeita e comovente atuação dos personagens, que executam em gestos delicados, firmes e respeitosos, o ritual de purificação do corpo, com as melhores vestimentas, flores e maquiagem. Tudo para que o morto, faça sua passagem com mais beleza e dignidade. A morte é uma presença.

Há o protagonista, o filho que saiu da cidade natal para a capital e depois volta, já casado, para a casa da infância, e o reencontro com objetos, fotos e pessoas do passado.
Vemos o tema delicado da difícil relação deste jovem com o pai, que ao final do filme é mostrada de uma forma magnífica, reunindo a dimensão emocional e espiritual numa inesperada descoberta, que é a chave da superação e libertação do personagem. E a morte/vida que se renova na criança que vai chegar.
Amor e morte nos são apresentados como rituais iniciáticos, que promovem a transformação da alma, para que novos significados possam nascer e florir.

O amor que parecia não existir, sempre esteve ali, silencioso e distante.
Quantas vezes precisamos perder alguém para que o amor por ela possa realmente aparecer?
Porque o milagre da vida e do existir só salta aos olhos quando a morte nos assombra?
Porquê não reverenciamos mais e melhor a possibilidade da nossa própria morte?

Porque a idéia de vivermos 90 ou 100 anos é sedutora?
De onde vem essa dificuldade de aceitar o fato que a cada dia estamos um pouco mais próximos daquilo que nem queremos falar?

Até as flores tem a sua própria sorte,
Algumas enfeitam a vida,
Outras enfeitam a morte

Que os jardins de nossa alma, suas emoções, anseios, pensamentos e receios possam ter todos os tipos de flores, cada uma com um perfume ou forma diferente, uma cor típica, pois todas são igualmente belas e tem algo a nos dizer.




domingo, 3 de janeiro de 2010

Paisagens da Alma
















A alma é uma paisagem.
Ou melhor, paisagens. Paisagens são feitas com campos, florestas, montanhas, rios, mares, nuvens – “coisas” que ficam fora de nós, que os sentidos percebem e nós lhes damos nomes.As paisagens da alma, entretanto, não são feitas de “ coisas”. São feitas de sentimentos. E os sentimentos, nós não temos como dize-los, os sentidos não conseguem fotografá-los.

Então um artista que mora dentro da gente, o tal de inconsciente, lança mão de um artífício: ele veste s sentimentos da paisagem com as coisas da paisagem de fora. Um medo muito grande aparece como um precipício; o tédio se parece com uma chuva persistente em meio a brumas.... Vingança? Um tigre.... A perda de um amor? Um velório.... E a experiência de liberdade? Você nunca voou nos sonhos?

Dessa forma o “artista” torna visíveis as paisagens da alma por meio de metáforas.
O “ artista”, além de ser pintor, é também um poeta.
Os sonhos são efêmeras visões das paisagens da alma, as paisagens que fazem nossa pele do lado de dentro, o lado do coração.
Quando a gente vê uma paisagem de fora e se emociona, a emoção não vem da paisagem de fora. Vem da paisagem de dentro.
Geralmente se pensa que a função dos psicanalistas é curar doenças da alma. Não concordo. Não sei se eles podem curar qualquer coisa. O que acho é que eles são os guias que nos levam a visitar paisagens da alma que nós mesmos desconhecemos. Bosques escuros, mares profundos, montanhas cobertas de neve, campos floridos, cemitérios...

Essa aventura não cura nada. Ela nos conduz por experiencia de tristeza e beleza. E isso nos torna mais sábios. A sabedoria é uma forma de cura. Mas preciso confessar que as trilhas mais fascinantes da minha alma, não foi a minha psicanalista que me revelou.
Foram os livros. Desses, o mais extraordinário é História sem fim, de Michael Ende. Tentaram transforma-lo em filme. Mas muita coisa se perdeu no caminho do livro para o cinema.
O outro é Viagem a Ixtlan, as lições de feitiçaria do bruxo D. Juan. É infinitamente superior aos livros que se veem nas livrarias e que contam estórias de mundos mágicos.Pena que não tenha sido reeditado.

Rubem Alves
Livro: Desfiz 75 anos
Editora Papirus, SP, 2009.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Feliz Ano Novo

Texto de Reinaldo Azevedo


Tinha como certo que não escreveria nada neste dia 31 além daqueles três textos da madrugada. Mas vocês são mesmo incríveis e me mobilizam. E o que começou como um trabalho - e, bem, é um trabalho - se tornou também um prazer ao qual é difícil, freqüentemente impossível, renunciar.

Caras e caros, estou aqui a lhes desejar um feliz “Feliz Ano Novo”. Acrescento outro adjetivo àquilo que já é uma fórmula, um clichê, uma expressão desgastada, na tentativa de fazer com que a estranheza inicial nos remeta ao sentido original da expressão, recuperando, assim, a sua vitalidade.

Estamos entrando em nosso quarto ano juntos. É só o começo de uma longa trajetória. Como vocês estão cientes, não sei profetizar. Quase nunca conjugo verbos no futuro ou aceno com amanhãs gloriosos. Mesmo quando trato do mistério, o Deus que prodigalizo é aquele que nos fala do milagre da Razão.
Assim, não tenho promessas a fazer, não tenho auroras a vender, não disponho de uma maleta de utilidades de onde tirar futuros sorridentes.

Estou atento à vida, ao ofício do dia-a-dia, a todas as pequenas maravilhas com que nos defrontamos, mas também às mesquinharias. No começo desta madrugada, estava mergulhado no meu Santo Agostinho e suas considerações sobre como podemos nos entristecer do bem divino, e, de repente, ouço um alarido, alguns gritos que misturavam riso e pânico. Eram as filhas. Com o coração na garganta, corri em seu socorro. Uma barata havia decidido participar da festa de encerramento do ano.

Nos segundos em que a persegui, vi correr aquele desengonçado e triste poema de Deus, tão precisa, mas tão inadequada em suas perninhas articuladas, repetindo eternamente a sua milenar escansão. Se eu disser que a vida é feita de asco e delicadezas, não estarei dizendo nada. Porque somos nós a colar esse contraste às coisas; somos nós a ornar com antíteses e outros brocados a realidade na tentativa desesperada de emprestar um sentido à existência.

E é precisamente esta a nossa felicidade e a nossa grande dor (de novo, o contraste): somos carentes de sentido. E isso nos torna a todos dignos de pena, mas também de amor. A barata me driblou, ganhou o jardim e sumiu vegetação adentro, mato adentro, eternidade afora, lá onde outras reiteram uma barata ideal, uma barata ancestral.

Somos tão distintos daquele bicho? As ciências naturais não teriam grande dificuldade em demonstrar que, estruturalmente, há mais semelhanças do que diferenças. Mas só nós carregamos a cruz da consciência. E isso nos torna tão únicos e tão sós.
E, por isso, precisamos tanto do outro, do ombro solidário, do abraço amigo.

Feliz “Feliz Ano Novo”¸ meus queridos!
Leia mais: